Contas e contos

Estava eu, em casa, à frente do computador e de costas para a tevê. Ouvia um programa de debate esportivo que já terminava. Em seguida, uma voz confiante começa a perguntar: “Você tem dívidas? Sua empresa não está rendendo o esperado? Precisa comprar um carro novo? Não agüenta mais pagar aluguel? Está com o nome sujo na praça?”.
Como havia passado boa parte daquela semana pesquisando taxas de juros em instituições diversas para uma matéria jornalística sobre economia, agucei meus ouvidos a fim de apurar quais eram as condições de parcelamento e quitação do empréstimo. Em vão, pois nada era especificado. Deduzi que as cláusulas desvantajosas estavam em minúsculas legendas repletas de números.
Ao girar a cadeira, tudo o que pude observar na tela foi um aglomerado de pessoas. Tratava-se de uma agência financeira extremamente popular e concorrida, claro. Afinal, parecia bem polivalente em relação ao mercado.
E eis que, finalmente, o anunciador ressurge. Dentro de um terno preto, o homem se move em direção à câmera, com ar tenso. “O mais importante: sem consulta ao SPC”, era o que faltava dizer. E “com juros baixíssimos no caso de empréstimos consignados a aposentados”.
Mas, em vez disso, ele passa a citar exemplos de mudanças radicais no estilo de vida daqueles que aderiam ao negócio. Então, além de grana, haveria algum tipo de qualificação e acompanhamento para a gerência de novas empresas.
Àquela altura, já estava tão intrigado que só me interessava saber qual era a instituição e quem seria o empreendedor que oferecia tantas garantias aos clientes. E o nome dele não demorou a ser citado. Aliás, a ser berrado. Era ninguém menos que Jesus. E perdoaria nossas dívidas assim como nós perdoássemos os que nos têm ludibriado. O businessman era pastor e os investidores davam a fé como entrada e parcelavam o restante no dízimo, em centenas de vezes (com juros e juras).
Pois é, senhor Marx. Foi-se o tempo em que religião era apenas o ópio do povo em busca de clemência, paz espiritual e anestesia à dor. Hoje, também é o crack dos marginalizados e um trago de Malboro daqueles que anseiam trocar de carro, mobiliar o apartamento ou sair do cheque especial.
Escrito por L. Ordoñez às 04h22
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Acabo por temer pela TV a cabo

Considerando que os meios de comunicação sejam uma arma, que dispara em diferentes sentidos e com objetivos diversos, o audiovisual brasileiro pode, mais uma vez, ter um tiro saindo pela culatra. E, novamente, os atiradores são legisladores.
Na década de 80, a chamada Lei do Curta oferecia benefícios tentadores aos exibidores de filmes que, antes de cada obra norte-americana, apresentassem um curta-metragem tupiniquim. Então, estes eram criados aos montes, com intenções pecuniárias, sem qualquer critério de qualidade – posteriormente, o Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (IBAC) ficou responsável pela triagem. Desastrosamente, isso gerou nos freqüentadores de cinema um duradouro desapreço pela famigerada produção nacional. A idéia de vinculação do material que vem de fora com o que é criado por aqui também foi cogitada em relação ao mercado de histórias em quadrinhos, sem jamais ser concretizada devido à experiência mal sucedida com filmes. Agora, tramita no Congresso Nacional, em forma de cota – palavra da moda em Brasília – um Projeto de Lei que visa, na grade das operadoras de TV a cabo, igualar o número de canais nacionais ao de estrangeiros. Estes ainda teriam que disponibilizar 10% da programação para conteúdo brasileiro. A medida também abre espaço para emissoras independentes e limita o tempo de propagandas. Voltando à metáfora da arma, além do tiro pela culatra, fica clara a intenção de, em mais uma oportunidade, carregá-la de forma que a bala seja inseria pela boca do cano, em vez de passar pelo cilindro e percorrer o caminho correto. Antes da imposição de tantos percentuais, várias perguntas deveriam ser respondidas. O que é produzido pelas emissoras nacionais tem, de acordo com o previsto na Constituição, algum valor cultural para a população? Esse conteúdo é fiscalizado em algum outro aspecto que não seja o da moralidade? Os processos de concessão são isentos? Há incentivo a produções independentes? Como esses e outros questionamentos costumam ficar sem respostas, o mais fácil é apertar o gatilho e esperar o estrondo, que, nesse caso, deve vir em forma de um significativo aumento no preço das assinaturas de TV a cabo, na escassez da variedade cultural da programação e na imprevisibilidade do que será inventado às pressas por aqui.
Escrito por Lordonez às 21h22
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A cura (apenas para o corpo)

Dentre tantas explicações científicas que envolvem a questão das experiências com células-tronco, falta uma que seria fundamental para o bom prosseguimento dos estudos: a que justificasse geneticamente a postura daqueles que se opõem aos avanços da humanidade.
O embrião da estupidez estaria na Igreja, que durante séculos legislou em causa própria a fim de manter a fidelidade dos cristãos a qualquer custo, inclusive o da morte alheia. E a vida de seres microscópicos agora é defendida por todos aqueles que pregam a divindade das criações do Senhor. Atualmente, estas posições religiosas do passado também são adotadas por políticos, influentes até no Poder Judiciário, que não hibernam na mesma ignorância da população desamparada, mas sobrevivem dela quando em forma de votos e procuram brechas na anacrônica Constituição Brasileira para impedirem os “diabólicos” avanços da ciência. Parte de uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil resume um pouco desta história: “E na tevê se você vir um deputado em pânico... diante de qualquer plano de educação que pareça fácil... e se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital... e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal...”. Independentemente das explicações técnicas a respeito do início de atividades cerebrais no 14º dia da “dramática existência” dos embriões, são risíveis os argumentos de “defesa da vida” diante deste caso. Isso porque seria necessário que alguma mulher de muito boa alma adotasse um destes traumatizados por tormentosas experiências para que houvesse a fecundação e, por conseqüência, um ser humano. Quanto aos benefícios gerados a partir das células capazes de recompor tecidos do corpo, chega a ser delinqüente dizer a alguém que, por acreditar numa revolução científica, preserva esperança de cura – seja de diabetes, de câncer, Mal de Parkinson, ou paralisia, incluindo conseqüências mais brandas para casos de AVC – que as chances de recuperação morrem diante de uma involução legislativa. Felizmente, ao que tudo indica, apesar de atrasos e palpites vãos sobre a questão, o Brasil deve se unir aos países que avançam cientificamente em busca de sanar doenças degenerativas. Mas a ignorância e a politicagem continuam por aqui. E, além de degenerarem, são epidemiológicas.
Escrito por Lordonez às 19h13
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Nome aos bois

Algum tempo após a série de atentados promovida contra policiais do Estado de São Paulo em maio de 2006, uma mudança de muito bom senso ocorreu nos textos dos noticiários da Rede Globo. A emissora passou a se referir a “uma organização criminosa”, sem nomear a mesma.
De fato, não havia como negar a existência de um grupo que crescia às vistas de todos. No entanto, intitulá-lo de PCC (Primeiro Comando da Capital), mesmo com a sigla pichada nos muros de dezenas de penitenciárias, era como registrá-lo em um cartório virtual perante a população. E, para qualquer adolescente sem referências decentes na vida, essas três letras significavam poder e auto-estima. Este foi um passo importante para o jornalismo brasileiro, mas algo está faltando. Chega a ser constrangedor ouvir em tom grave e dramático um apresentador pronunciar “Elias Maluco”. Como um traficante e assassino de métodos cruéis pode ser tratado por um nome artístico? Se algum dia você receber um cheque de Luiz Fernando da Costa pode ser que o mesmo provenha de Fernandinho Beira-Mar. E, embora este seja o nome pelo qual é conhecido entre a bandidagem e pelos moradores da comunidade que domina, o número de pessoas destes meios é insignificante perante a abrangência de um Jornal Nacional, que chega a milhões de lares diariamente. Assim, a maioria dos brasileiros acaba conhecendo as celebridades criminosas por meigos ou cômicos apelidos, ideais para a formação de ídolos. Mas, enfim, uma boa notícia dá conta de novos telejornais passarão a tratar todo mundo pelo nome completo. A medida será tomada mais por precaução judicial do que pelo bom senso em si, mas já é um bom começo e um ótimo exemplo a ser seguido.
Escrito por Lordonez às 02h22
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Campos de concentração em tempos de desunião

“As condições de reclusão são as de um campo de concentração”, disse o ex-senador colombiano Luis Eladio Pérez após ser libertado por guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na semana passada.
Orlando Beltrán, outro que reconquistou a liberdade, expôs detalhes do drama que viveu. “Vi muitos casos de absoluta demência dos que não conseguiram superar o horror do seqüestro. A malária provoca febres altíssimas e calafrios que os fazem delirar. Acrescenta-se a isso, o fato de estarem amarrados a uma árvore de dia e a uma cama de noite. É uma situação horrível, para deixar qualquer um louco”. Essa libertação de mais uma leva de reféns coincidiu com uma caçada a guerrilheiros que culminou com a morte de 16 deles, incluindo Luis Édgar Devia, um dos líderes da organização. E isso ocorreu em território equatoriano, com direito a um bombardeio aéreo. Agora, o presidente Rafael Correa, que durante um tempo acenou com a possibilidade de aderir à esquerda populista latino-americana, se divide entre cobrar explicações e se explicar, já que desde sempre é sabido que o país serve de cativeiro para criminosos. Da Venezuela, outro refúgio das Farc, Hugo Chávez fala até em guerra, enquanto o colombiano Álvaro Uribe se mantém irredutível em relação à troca de prisioneiros. Assim, esses três nomes, enquanto discordam entre si, prolongam uma situação de agonia de cerca de 500 reféns, entre políticos, militares e civis – seqüestrados para manter em dia as finanças do grupo. E, também neste aspecto, a crise apresenta semelhanças com o holocausto da Segunda Guerra. À época, Joseph Stálin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill demoraram anos para planejar uma ação conjunta contra o nazismo. O líder soviético, após pacto com Adolf Hitler, apostou no crescimento do país enquanto o acidente se acabava em batalhas. Posteriormente, quando atacado pelos alemães, sofreu com o desinteresse de ingleses e norte-americanos pelo combate, já que estes, assim como o Papa Pio XII, não faziam qualquer questão de evitar a morte de comunistas. Muito sangue e política foram necessários para que as três potências se unissem e os Aliados promovessem uma ofensiva em massa contra as tropas do Eixo. E, somente depois desta união, concretizada a partir do Dia D, foi possível crer que a Europa voltaria a ter dias de paz. No entanto, a demora na formação desta coalizão deixou um trágico saldo de quase 20 milhões de civis soviéticos massacrados e 5 milhões de judeus, oriundos de diversos países, assassinados após anos de clausura em campos de concentração. A barbárie só veio à tona quando o Reich foi abaixo. E chocou o mundo. Leis de retaliação contra ataques a soldados alemães também exterminaram mulheres e crianças nos países ocupados. No caso atual, a ameaça vem da indecisão e da imprevisibilidade de Uribe, que ora aceita intermediações pelo resgate de reféns e se compromete a não atacar guerrilheiros em determinadas áreas da Colômbia, ora promove ataques aéreos no país vizinho. O perigo também está no cinismo indolente de Correa, que ignorou durante todo o tempo a presença de campos guerrilheiros no Equador e agora parece pender à indignação populista de Chávez, se colocando como possível “intermediário” nas negociações. E do presidente venezuelano vem o título de “bolivariano”, forçando um sentido político, a um grupo criminoso que, há muito tempo, deixou de lado qualquer ideologia que não fosse a arrecadação de dinheiro por meio de drogas e seqüestros. Ele apóia a negociação que visa a troca dos reféns pela libertação de centenas de membros da organização pelo governo colombiano. A decisão correta a ser tomada ainda divide opiniões, inclusive entre parentes das vítimas. E há divergência entre a preservação de vidas e a respeitabilidade do estado. A única coisa certa é que, enquanto estes três líderes não se unirem, deixando de lado as divergências políticas e morais, os horrores dos campos de contração se repetirão na América do Sul. E o tamanho da tragédia será conhecido somente quando já for tarde demais para evitá-la.
Escrito por Lordonez às 18h48
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BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English
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