Contas e contos

Estava eu, em casa, à frente do computador e de costas para a tevê. Ouvia um programa de debate esportivo que já terminava. Em seguida, uma voz confiante começa a perguntar: “Você tem dívidas? Sua empresa não está rendendo o esperado? Precisa comprar um carro novo? Não agüenta mais pagar aluguel? Está com o nome sujo na praça?”.

Como havia passado boa parte daquela semana pesquisando taxas de juros em instituições diversas para uma matéria jornalística sobre economia, agucei meus ouvidos a fim de apurar quais eram as condições de parcelamento e quitação do empréstimo. Em vão, pois nada era especificado. Deduzi que as cláusulas desvantajosas estavam em minúsculas legendas repletas de números.

Ao girar a cadeira, tudo o que pude observar na tela foi um aglomerado de pessoas. Tratava-se de uma agência financeira extremamente popular e concorrida, claro. Afinal, parecia bem polivalente em relação ao mercado.

E eis que, finalmente, o anunciador ressurge. Dentro de um terno preto, o homem se move em direção à câmera, com ar tenso. “O mais importante: sem consulta ao SPC”, era o que faltava dizer. E “com juros baixíssimos no caso de empréstimos consignados a aposentados”.

Mas, em vez disso, ele passa a citar exemplos de mudanças radicais no estilo de vida daqueles que aderiam ao negócio. Então, além de grana, haveria algum tipo de qualificação e acompanhamento para a gerência de novas empresas.

Àquela altura, já estava tão intrigado que só me interessava saber qual era a instituição e quem seria o empreendedor que oferecia tantas garantias aos clientes. E o nome dele não demorou a ser citado. Aliás, a ser berrado. Era ninguém menos que Jesus. E perdoaria nossas dívidas assim como nós perdoássemos os que nos têm ludibriado. O businessman era pastor e os investidores davam a fé como entrada e parcelavam o restante no dízimo, em centenas de vezes (com juros e juras).

Pois é, senhor Marx. Foi-se o tempo em que religião era apenas o ópio do povo em busca de clemência, paz espiritual e anestesia à dor. Hoje, também é o crack dos marginalizados e um trago de Malboro daqueles que anseiam trocar de carro, mobiliar o apartamento ou sair do cheque especial.



Escrito por L. Ordoñez às 04h22
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