Campos de concentração em tempos de desunião

“As condições de reclusão são as de um campo de concentração”, disse o ex-senador colombiano Luis Eladio Pérez após ser libertado por guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na semana passada.
Orlando Beltrán, outro que reconquistou a liberdade, expôs detalhes do drama que viveu. “Vi muitos casos de absoluta demência dos que não conseguiram superar o horror do seqüestro. A malária provoca febres altíssimas e calafrios que os fazem delirar. Acrescenta-se a isso, o fato de estarem amarrados a uma árvore de dia e a uma cama de noite. É uma situação horrível, para deixar qualquer um louco”. Essa libertação de mais uma leva de reféns coincidiu com uma caçada a guerrilheiros que culminou com a morte de 16 deles, incluindo Luis Édgar Devia, um dos líderes da organização. E isso ocorreu em território equatoriano, com direito a um bombardeio aéreo. Agora, o presidente Rafael Correa, que durante um tempo acenou com a possibilidade de aderir à esquerda populista latino-americana, se divide entre cobrar explicações e se explicar, já que desde sempre é sabido que o país serve de cativeiro para criminosos. Da Venezuela, outro refúgio das Farc, Hugo Chávez fala até em guerra, enquanto o colombiano Álvaro Uribe se mantém irredutível em relação à troca de prisioneiros. Assim, esses três nomes, enquanto discordam entre si, prolongam uma situação de agonia de cerca de 500 reféns, entre políticos, militares e civis – seqüestrados para manter em dia as finanças do grupo. E, também neste aspecto, a crise apresenta semelhanças com o holocausto da Segunda Guerra. À época, Joseph Stálin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill demoraram anos para planejar uma ação conjunta contra o nazismo. O líder soviético, após pacto com Adolf Hitler, apostou no crescimento do país enquanto o acidente se acabava em batalhas. Posteriormente, quando atacado pelos alemães, sofreu com o desinteresse de ingleses e norte-americanos pelo combate, já que estes, assim como o Papa Pio XII, não faziam qualquer questão de evitar a morte de comunistas. Muito sangue e política foram necessários para que as três potências se unissem e os Aliados promovessem uma ofensiva em massa contra as tropas do Eixo. E, somente depois desta união, concretizada a partir do Dia D, foi possível crer que a Europa voltaria a ter dias de paz. No entanto, a demora na formação desta coalizão deixou um trágico saldo de quase 20 milhões de civis soviéticos massacrados e 5 milhões de judeus, oriundos de diversos países, assassinados após anos de clausura em campos de concentração. A barbárie só veio à tona quando o Reich foi abaixo. E chocou o mundo. Leis de retaliação contra ataques a soldados alemães também exterminaram mulheres e crianças nos países ocupados. No caso atual, a ameaça vem da indecisão e da imprevisibilidade de Uribe, que ora aceita intermediações pelo resgate de reféns e se compromete a não atacar guerrilheiros em determinadas áreas da Colômbia, ora promove ataques aéreos no país vizinho. O perigo também está no cinismo indolente de Correa, que ignorou durante todo o tempo a presença de campos guerrilheiros no Equador e agora parece pender à indignação populista de Chávez, se colocando como possível “intermediário” nas negociações. E do presidente venezuelano vem o título de “bolivariano”, forçando um sentido político, a um grupo criminoso que, há muito tempo, deixou de lado qualquer ideologia que não fosse a arrecadação de dinheiro por meio de drogas e seqüestros. Ele apóia a negociação que visa a troca dos reféns pela libertação de centenas de membros da organização pelo governo colombiano. A decisão correta a ser tomada ainda divide opiniões, inclusive entre parentes das vítimas. E há divergência entre a preservação de vidas e a respeitabilidade do estado. A única coisa certa é que, enquanto estes três líderes não se unirem, deixando de lado as divergências políticas e morais, os horrores dos campos de contração se repetirão na América do Sul. E o tamanho da tragédia será conhecido somente quando já for tarde demais para evitá-la.
Escrito por Lordonez às 18h48
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